Transtorno psicológico afasta um a cada três policiais em MG - Matéria publicada no Jornal o Tempo de 18/06/2018

Na Polícia Civil, 33% ficam de licença por problemas emocionais; entre PMs, índice é de 25%

Cerca de 25% dos policiais militares são afastados do trabalho por problemas psicológicos, segundo a Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares de Minas Gerais (Aspra-MG). Entre os policiais civis, o índice é ainda maior: 33%, de acordo com o Sindicato dos Policiais Civis de Minas Gerais (Sindpol). Isso significa que, em média, um a cada três agentes fica de licença médica por causa de transtornos decorrentes da profissão – as corporações não divulgam dados sobre o assunto sob a justificativa de não expor a vida íntima dos servidores.
Para especialistas, os policiais civis e militares estão mais expostos a fatores que levam ao sofrimento mental, como o risco de morte e o fato de andarem armados mesmo quando estão de folga, para protegerem a si mesmos e suas famílias.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 76% dos policiais já foram vítimas de ameaças em decorrência da profissão e 70% tiveram colegas mortos em serviço. “O atendimento de um policial em uma noite é assustador. Ele fica exposto a situações estressantes, toma decisões difíceis”, analisou o professor titular da Unicamp e especialista em psicologia do trabalho Roberto Heloani. Ele diz que os policiais convivem ainda com a percepção de que a população sente medo e repulsa deles.
Riscos. O agravante é que esses profissionais trabalham com arma na mão, o que potencializa o risco de cometerem violência contra eles mesmos e os outros. Só nos últimos dois meses, Minas registrou ao menos cinco casos do tipo: em abril, um PM matou a ex-companheira e sequestrou a filha em Santos Dumont, na Zona da Mata. Em maio, foram três ocorrências na região metropolitana – um policial civil matou uma mulher e duas filhas dela em Santa Luzia; um militar se matou e atingiu a companheira, em Betim, e um escrivão da Polícia Civil matou uma mulher dentro da Câmara de Contagem. Já no último dia 9, um investigador da corporação assassinou a companheira e se matou em São Joaquim de Bicas. 
Segundo o especialista em segurança pública Jorge Tassi, uma pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro aponta que o índice de suicídio de policiais é sete vezes superior ao da população geral. De acordo com ele, a desagregação familiar é uma marca entre os profissionais. “O policial vive sob constante risco, precisa fazer bico, tem problema dentro de casa, não vê a mulher e os filhos. O nível de divórcio é alto”, destacou.
Para Tassi, o profissional passa por teste psicológico para ingressar na corporação, mas as condições mudam ao longo da carreira: “Ele entra em um processo de turbilhão, toma remédio, usa droga, se mata”. 
A Polícia Civil informou que oferece plano de saúde, atendimento exclusivo e especializado em hospital da corporação e centro de psicologia. A PM garantiu que faz exames periódicos e que tem um sistema de saúde capaz de atender bem o policial e suas famílias.