Crack e pobreza alimentam crime em Maceió, capital do homicídio no Brasil



AFP
 - Agence France-Presse / Estado de Minas
Ainda que as razões para explicar a violência em Maceió sejam muito variadas, há um argumento compartilhado: o crack avivou a fogueira do crime. (REUTERS/Ricardo Moraes )
Ainda que as razões para explicar a violência em Maceió sejam muito variadas, há um argumento compartilhado: o crack avivou a fogueira do crime.


Uma mistura de miséria e crack transformou Maceió na capital dos homicídios no Brasil, onde os que matam e morrem são, na maioria, jovens pobres, invisíveis para os turistas que lotam as praias paradisíacas da cidade.

A violência passa ao largo da orla, dominada por hotéis de luxo. "A violência que provoca homicídios está restrita aos cinturões de miséria", explicou Dario Cavalcante, secretário de segurança pública de Alagoas. "Em sete anos, perdi cinco filhos. Foram mortos por amigos. Compraram droga, não pagaram as dívidas e morreram. O mais jovem tinha 18 anos e o mais velho, 23", disse Severino López, um vendedor de doces de 59 anos.

Em 31 de dezembro, um dos filhos de Claide Maria Souza também foi morto. Era viciado em crack, subproduto da cocaína, e foi surpreendido roubando um mercado em Vila Brejal. "Um vigia o surpreendeu e o matou a pauladas. Esteve três dias no hospital. Quem matou o meu filho morreu. Não foi por vingança minha. Tinha muitos inimigos", relatou.

As "dívidas do crack", que levam um viciado a perder a vida por menos de três dólares nas mãos de um traficante, são o combustível da violência que transformou Maceió na cidade do Brasil com a maior taxa de homicídios com relação à sua população: 109,9 por 100 mil habitantes em 2010. Maceió tem 1,1 milhão de habitantes. "De 360 homicídios por ano, em 2000, passou a 1.025 em 2010, um crescimento de 184,7%", afirmou Julio Jacobo Waiselfisz, autor do Mapa da Violência 2012, elaborado pelo Instituto Sangari a partir do registro oficial de mortos. O índice de homicídios em todo o Brasil é de 26,2 por 100 mil habitantes.

Em Maceió, a violência se concentra em 15 favelas populosas, várias insalubres, onde vítimas e carrascos são igualmente pobres. Aqui, lembram seus moradores, a vida se passava nas ruas antes de o crack aparecer, há menos de uma década. "Diferente do que o Estado diz, as crianças não vão às ruas consumir a droga. Eles estavam na rua e lá chegou o crack. E para que consomem? Para sentir prazer", explicou Maria da Graça Souza, diretora de um centro infantil aonde chegam filhos de pais consumidores.

"Aquele que mata hoje, morre amanhã"

Diferente das favelas do Rio, os traficantes de Maceió não exercem domínio territorial, nem vivem com luxo evidente. "Aqui se mata ou se morre por apenas 10 reais. O crime não é uma fonte de riqueza. Traficantes e consumidores se matam entre si. Quem mata hoje, morre amanhã", ilustrou Cavalcante.

Em Alagoas, mais de 50% da população sobrevivem abaixo da linha da pobreza e 25% são analfabetas, segundo a fonte. Depois do Maranhão e do Piauí, é o estado com piores índices sociais do Brasil, a sexta economia do mundo.

Ainda que as razões para explicar a violência em Maceió sejam muito variadas, há um argumento compartilhado: o crack avivou a fogueira do crime.

A droga, que em geral entra pela Bolívia e pelo Peru, está por trás dos relatos de morte nas favelas e é a justificação para a repressão policial, não isenta de abusos ou corrupção, que só no mês passado custaram o cargo de quatro policiais.

Em uma incursão noturna à Virgem dos Pobres, o tenente Washington - não quis dar seu sobrenome - ordena, revista e muito poucas vezes sorri. Sempre à frente de seus homens, sua missão é interceptar os traficantes e registrar os dependentes para que recebam ajuda médica. "Se um usuário não paga uma dívida com um traficante, morre. Matam para dar lição aos outros. Oitenta por cento dos homicídios estão ligados ao crack", disse.

Jovens de chinelos e bermudas agem por reflexo quando veem os policiais. Põem as mãos na cabeça, baixam o olhar e esperam, resignados, que os revistem com grosseria. "É lamentável que algumas destas favelas estejam conhecendo o Estado através da polícia. Não conheceram o Estado prevenindo, educando, dando saúde", condenou Ruth Vasconcelos, da Universidade Federal de Alagoas, autora de vários estudos sobre a violência neste estado.


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