MANIFESTAÇÕES DE OPERADORES DA SEGURANÇA PÚBLICA, GANÂNCIA, REVOLTA, INDIGNAÇÃO OU UM FLAGRANTE DE DESCASO?

É necessário num momento como este da segurança pública do Brasil fazer uma reflexão de tudo o que está acontecendo e principalmente tudo o que é declarado nos mais diversos meios de comunicação a este respeito. É preciso, portanto ficar atento ao que dizem os policiais que estão se manifestando em todo o Brasil, na imprensa através de seus repórteres, ancoras e comentaristas, nas entrevistas populares que podem ser dirigidas ardilosamente pelos reportes que as fazem e principalmente pelo poder público através de seus representantes, os assessores de imprensa, os próprios chefes do poder executivo quando fazem suas declarações, os secretários de segurança pública, os comandantes gerais das corporações manifestantes e em determinados casos quando o movimento passa da manifestação para o movimento paredista vemos manifestarem-se publicamente outras autoridades da esfera federal como no caso mais recente do Estado da Bahia o Ministro da Justiça.  Com base nisto pretendo passar as impressões que tenho de dentro e de fora da caserna sobre tudo aquilo que atualmente nos aflige a este respeito.

            Antes de outras considerações creio que devo fazer uma citação a respeito da legalidade do movimento paredista, assim busquei da fonte da página da COMUNIDADE DOS POLICIAIS E BOMBEIROS DO BRASIL A MAIOR DO GÊNERO, a auto-explicativa matéria, na íntegra, publicada em data de 17 de janeiro de 2012, do site Sinpol notícias, postado por SOS PMERJ, sobre direito de greve, hierarquia e disciplina nas Polícias Militares do Brasil, sob o seguinte título: “JUIZ FEDERAL DIZ QUE A GREVE SÓ É PROIBIDA PARA AS FORÇAS ARMADAS.”
“O fim da greve de policiais civis em São Paulo trouxe à tona a discussão sobre o direito de greve de servidores públicos em geral e, em particular, de policiais. O debate é oportuno. Alguns alegam que a greve de policiais militares dos estados conspira contra disposição constitucional que versa sobre a hierarquia e a disciplina.
No entanto, quando se irrompe o movimento grevista, não há que falar em quebra da hierarquia, que se refere à estrutura organizacional graduada da corporação e que se mantém preservada mesmo nesse instante.
A inobservância de ordens provenientes dos que detêm patentes superiores, com a paralisação, caracteriza ato de indisciplina? Recorde-se que a determinação proveniente de superior hierárquico, para ser válida, deve ser legal. Jamais, com base na hierarquia e na obediência, por exemplo, há que exigir de um soldado que mate alguém apenas por ser esse o desejo caprichoso de seu superior.
Logo, se existem condições que afrontem a dignidade da pessoa humana no exercício da atividade policial, o ato de se colocar contra tal estado de coisas jamais poderia ser tido como de indisciplina. A busca por melhores salários e condições de trabalho não implica ato de insubordinação, mas de recomposição da dignidade que deve haver no exercício de qualquer atividade remunerada. Portanto, se situa dentro dos parâmetros constitucionais.
Quanto às polícias civis e federais, não há sequer norma semelhante à anterior, até mesmo porque possuem organização diversa. No entanto, para afastar alegações de inconstitucionalidade da greve de policiais, o mais importante é que não se deve confundir polícia com Forças Armadas.
Conforme previsão constitucional, a primeira tem como dever a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. Já as segundas, constituídas por Exército, Marinha e Aeronáutica, destinam-se à defesa da pátria e à garantia dos Poderes, da lei e da ordem.
Às Forças Armadas, e somente a elas, é vedada expressamente a greve (artigo 142, parágrafo 3º, inciso IV, da Constituição). Ressalte-se que em nenhum instante foi feita igual referência à polícia, como se percebe dos artigos 42 e 144 do texto constitucional. A razão é simples: somente às Forças Armadas não seria dado realizar a greve, um direito fundamental social, uma vez que se encontram na defesa da soberania nacional. É de entender a limitação em um texto que lida diretamente com a soberania, como a Constituição Federal.
 O uso de armas, por si só, não transforma em semelhantes hipóteses que são distintas quanto aos seus fins. As situações não são análogas. A particularidade de ser um serviço público em que os servidores estão armados sugere que a utilização de armas no movimento implica o abuso do direito de greve, com a imposição de sanções hoje já existentes.
Não existe diferença quanto à essencialidade em serviços públicos como saúde, educação ou segurança pública. Não se justifica o tratamento distinto a seus prestadores. Apenas há que submeter o direito de greve do policial ao saudável ato de ponderação, buscando seus limites ante outros valores constitucionais.
 Não é de admitir interpretação constitucional que crie proibição a direito fundamental não concebida por legislador constituinte. Há apenas que possibilitar o uso, para os policiais, das regras aplicáveis aos servidores públicos civis.
No mais, deve-se buscar a imediata ratificação da convenção 151 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que versa sobre as relações de trabalho no setor público e que abre possibilidade à negociação coletiva, permitindo sua extensão à polícia.
Uma polícia bem equipada, com policiais devidamente remunerados e trabalhando em condições dignas não deve ser vista como exigência egoísta de grevistas. Trata-se da busca da eficiência na atuação administrativa (artigo 37 da Constituição) e da satisfação do interesse público no serviço prestado com qualidade. ”  
Marcus Orione Gonçalves Correia doutor e livre-docente pela USP, professor associado do Departamento de Direito do Trabalho e da Seguridade Social e da área de concentração em direitos humanos da pós-graduação da Faculdade de Direito da USP, é juiz federal em São Paulo (SP).
            O que temos visto na prática é que os discursos não estão em conformidade com o ordenamento jurídico a respeito da manifestação e greve de trabalhadores da segurança pública, principalmente no que diz respeito aos trabalhadores que em sua denominação funcional são militares. As declarações do poder público omitem a legalidade destas manifestações, que não são políticas, tratando seus protagonistas como criminosos, como argumento para ameaçá-los e desmoralizar o movimento e levianamente os atribuindo falsamente à prática de crimes quando se deparam com a situação de caos pela falta destes mesmos profissionais nas ruas de suas cidades, “uma covardia que se faz pela ausência de argumentos”.
 Em tudo isso há nas instituições militares um pano de fundo que fica obscuro, pois os discursos dos Comandantes são flagrantes de defesa de um status ligado ao poder conseguido nas corporações e que não quer ceder nem um milímetro de espaço, assim é possível exemplificar pelo texto com o título “O sepulcro das Idéias”, que se refere à reflexão de um oficial de polícia, de leitura necessária para as Praças de Polícia e Bombeiro Militares e obrigatória aos Oficias de Polícia e Bombeiro Militares, o qual também reporto na íntegra, denunciando mesmo o fato de que não há motivo aparente para nossos comandantes cumprirem o seu papel de apoiar os seus comandados na busca pela dignidade profissional que se tornará dignidade institucional, uma vez que liberdade de expressão e manifestação não anula, atenua e nem desmoraliza nenhum poder, mas o engrandece, porque o torna transparente. Não há vergonha e indignidade em perder o poder, mas há em mantê-lo sob o jugo da chibata, não há nenhuma indignidade em perder o poder se lutarmos pela causa Justa e nos mantermos capazes de manter a cabeça erguida diante de nossos pares, superiores e subordinados, preservando assim a nossa moral. Diante de tal raciocínio vamos ao texto que segue :
O SEPULCRO DAS IDÉIAS
“Sou oficial há alguns anos, mas ingressei na Polícia Militar como praça simples, foi nesse tempo que passei a observar o comportamento dos homens que comandam os destinos dessa intrigante organização. Ao entender o comportamento deles pude me adaptar. Nunca fui muito de falar ou escrever, muito menos de reivindicar direitos. Não nego que isso é uma falha como cidadão, mas busquei compensá-la sendo um observador contumaz. Tornei-me uma coruja do sistema…
Acompanhei vários oficiais desde os tempos de moleque na academia, e vi como muitos deles, depois de ingressarem no primeiro posto, deixam escapar um sentimento, muitas vezes até sincero – e sempre ingênuo – de “mudar a corporação” quando a oportunidade chega.
“Quando eu chegar a coronel, vou mudar isso, vou mudar aquilo…” Inúmeras foram as vezes que ouvi companheiros repetindo esta mesma frase nos primeiros anos de oficialato.
Depois disso, quando chegam a capitão, muitos já esqueceram a idéia “revolucionária” de mudar a PM. Esses podem ser chamados tranquilamente de “precoces”, pois logo entendem que o sistema foi feito para eles.
Outros mais raros alimentam a idéia de “dias melhores” até o posto de major. Só que esses, quase sempre, são os que ainda não melaram os dedos no adocicado mel que corre entre as estrelas e gemadas. Os preteridos ou perseguidos pelo sistema são os que ainda reclamam e falam em mudanças.
De tenente-coronel acima, “mudança” é apenas uma palavra no Aurélio. Até mudança de local de trabalho se chama “movimentação” e mudança de comando se chama “passagem”.
Quando, finalmente, atingem o último posto da corporação, intitulam-se a si mesmos de “cardeais” – expressão que era usada com um prazer esquisito por um coronel ex-diretor do DETRAN, no governo Suruagy –; nesse momento, o sistema já os absorveu por inteiro. Até os mais sinceros e de bom coração não falam mais em mudanças ou em ideias contrárias ao seu agora amado sistema. Pelo contrário, o posto de coronel constrói na cabeça deles um forte militar contra ventos de mudança. Embora nada possa ser comparado a um coronel da PM, pode-se dizer que é mais ou menos como o cara pobre que consegue enriquecer e passa a ter raiva de pobre, principalmente dos parentes pobres.
Os coronéis são os que chegam à “terra prometida” pelo sistema; aqui não corre apenas leite e mel. Há muitos espólios mais a serem rateados.
Talvez eu também me torne um cego guiando cegos (embora seja quase impossível chegar a coronel por antiguidade, muito menos, pobre de mim, por “escolha”), porque o sistema foi feito para não ser vencido. Não é por acaso que a PM se mantém de pé, por quase dois séculos, quase sem mudanças. Todas as mudanças políticas e jurídicas deste país nunca mudaram as briosas.
Em matéria de sobrevivência a PM bota o Rambo no bolso.
Mas, pense bem, não é sem razão que os coronéis defendem esse sistema com as próprias vidas. Se eles não plantam, não semeiam, não se esforçam para ganhar o pão de cada dia, dão ordens sem ser mandados, porque mudariam as coisas?
Se eles são os herdeiros da PM nunca vão abrir mão de sua propriedade privada.
Observei também que cada coronel sobe ao posto com uma espada e uma mordaça nas mãos. Nem adianta você querer ver, essas armas são invisíveis, estão por baixo das gemadas… São afiadas e manipuladas e aperfeiçoadas nas reuniões secretas do “clero”.
A missão principal de um coronel (se você pensava que era só sentar na cadeira e assinar papéis está redondamente equivocado) é calar as vozes contra o sistema.
Qualquer ideia nova soa o alarme, levanta o coronel de sua poltrona, saca a espada de cortar línguas afiadas e a mordaça de calar os contras. Um coronel da PM é um carrasco. Um carrasco das ideias. Um decepador de cabeças pensantes. Não há remorso. Não se vê hesitação. Não existe indulto. A cabeça levantada contra o sistema tem o destino da cabeça de João Batista porque há sempre uma amante do rei que quer o prêmio numa bandeja de inox.
Outra missão dos coronéis é a de detergentes do sistema.
O coronel-detergente limpa e purifica a imagem da PM para mostrá-la numa vitrine. Essa é a PM que a sociedade vê; principalmente a sociedade-autoridade, a sociedade-governo e a sociedade-imprensa.
Nisso, os coronéis são auxiliados por todos nós, oficiais. As praças também contribuem porque o sistema é envolvente, sedutor e nos faz vender sua boa imagem lá fora. É a força da doutrina plantada no CFAP e Academia, onde os chips são implantados nos cérebros.
Além de tudo, as gemadas dão poderes de camaleão: mudam o comportamento de um coronel conforme o local e a pessoa. Se estão diante de uma autoridade capaz de lhes render frutos políticos ou prestígio, são bons atores para mostrar retidão e seriedade, e em muitos casos “babação” mesmo. Se estão perante pares, procuram se mostrar inteligentes; quando estão diante de um subordinado… (comentários dispensados).
E o sepulcro?
Bem, quando alguém fala que fulano ou beltrano é como um “sepulcro caiado”, está dizendo, na verdade, que a pessoa até tem boa aparência por fora, enquanto lá por dentro, no interior invisível, a coisa é muito desagradável.
A PM não deveria ser assim, mas hoje, para infelicidade nossa, ela é um sepulcro caiado pelos coronéis. “Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento.”
Não é a corporação – quase sempre usada como poderoduto até o palácio do governo e outros nichos do poder –, mas o que os coronéis-coveiros fizeram dela (com exceções raras), seja lhe impondo uma legislação coxa, seja lhe desviando dos trilhos, sua missão.
Portanto, recapitulando, a missão dos coronéis é simples: caiadores de sepulcros e coveiros das ideias indesejadas ou que ameacem o poder das gemadas.
Muitas coisas bem cabeludas são escondidas por trás da pompa externa da PM, lustrada, pelo lado de fora, por seus poderosos comandantes.
Dentro desse sepulcro das ideias, rola coisa feia. Mas para os “gemadões” há sempre um céu de brigadeiro. Não tem tempo ruim. A mamata das viaturas, dos telefones 8833 e 3315, de motoristas à disposição; viagens de “estudos” recheadas de diárias obesas, grana dos “mensalinhos” (aqueles pagos pelos bancos, no Interior e na Capital, pelas usinas, fazendas e empresas de ônibus que “contribuem” para as unidades da PM); da rica tia DAL; das taxas arrancadas dos alunos do CFAP e Academia, do acesso ao poder pelos subterrâneos da PM; do abuso de autoridade, usado tanto para mamar como pra perseguir os subordinados.
Quando era tenente, trabalhei com um coronel no CPI que deixava motorista e viatura à disposição de seus dois filhos e da esposa, inclusive aos sábados, domingos e feriados.
É por isso tudo que os coronéis se atiram de corpo, alma e gemadas ao ramo de coveiro, e acabam se tornando tão bons que passam a sepultar as próprias ideias. É o sistema que importa: manter o sistema é preciso, viver não é preciso.
Como a vida às vezes é irônica e engraçada. O tempo como aluno de oficial e a promoção a coronel é um círculo que se fecha. Quando se é aluno não se fala do sistema porque não se pode ou não se conhece. Quando se chega a coronel, ninguém fala porque só um doido cospe no prato que come.
Não posso negar que, na qualidade de oficial, namoro o sistema, gosto dele, mas tem coisas que precisam chegar ao conhecimento da sociedade.
É por isso que dificilmente essa minha relação com o sistema acabará em casamento, porque pra casar mesmo, meu filho, tem que ter acesso ao papa, mas, pra isso, precisa antes ser cardeal, senão, melhor meter uma promoção por tempo de serviço e ser cardeal na reserva.
Por fim, uma coisa é certa: eu não estou preparado para caiar sepulcros…”
Fonte: Acesse: http://www.uniblogbr.com/2011/10/briosa-em-foco-o-sepulcro-das ideias.html#comment-form
            Neste sepulcro de idéias somos forçados a nos calar e os movimentos paredistas que são pela busca de dignidade humana, do sustento familiar, de reconhecimento social, de dignidade profissional revertidas em melhores condições de trabalho, de tratamento digno no interior dos quartéis, delegacias e repartições, são sumariamente satanizados.  Além disso, podemos citar o primordial cumprimento da lei como obrigação que o Estado ignora quando deveria ser o exemplo, o primeiro a cumprir e não cumpre, entretanto exige dos seus servidores que o façam, num paradoxo apoiado pelas instituições e suas mordaças que lembra um antigo chavão “FAÇA O QUE EU DIGO, MAS NÃO FAÇA O QUE EU FAÇO”. Assim os gestores públicos são auxiliados pelos poderes institucionais que os rodeiam e vão “EMPURRANDO COM A BARRIGA” os seus compromissos de governo, ano após ano, deixando de cumprir os preceitos legais da nossa Carta Magna e os dispositivos por ela garantidos e consignados a mais de duas décadas. E o que sempre irrita é a aquela desculpa que aclara a memória dos nossos chefes do poder executivo em todo o Brasil a respeito da lei, que são lembrados apenas quando dizem que não podem melhorar a dignidade de seus servidores porque vão ferir a lei de responsabilidade fiscal, lembrada apenas neste momento e esquecida em tantos outros. Enquanto isso eles inflamam a opinião pública com informações inverídicas que a mídia trás à tona com declarações bombásticas. É um trabalho de contra informação muito bem engendrado e que vemos funcionar muito bem, como a exemplo das notícias que aparecem a respeito do movimento na segurança pública da Bahia e incriminam irresponsavelmente os policiais baianos. Isto tem o intuito claro de desmoralizar a manifestação e insuflá-la contra a população daquele Estado, ainda que sua legitimidade esteja estampada para qualquer opinião, mesmo a mais aguçada e crítica. Analiso que a mídia em sua grande maioria está prestando informações pelo menos imparciais, salvo as redes de comunicação que estão nas mãos (cofres) dos governos por interesses diversos, mas na totalidade essas mídias carecem de um trabalho mais profundo de reportagem, pois estão esquecendo de citar que este estado de coisas é fruto de muitas décadas de abandono da segurança pública em todo o Brasil.
            Após serem caladas legiões de profissionais deste segmento funcional, os militares do Estado, vemos a eclosão que classificaria tardia, dos movimentos por tratamento digno em todos os campos relativos ao desenvolvimento da profissão, desde roupas (fardamento), passando por problemas de relacionamento entre praças e oficiais, numa polícia extremamente dividida por estes segmentos internos que recebem tratamentos infinitamente diferentes, primeiro devido à aplicação indiscriminada de regulamentos e devido ao uso do poder discricionário como desculpa para o abuso de poder, que culminaram como ponto principal por lutas salariais, uma vez que este ponto, o salário é que leva efetivamente o sustento, a sobrevivência para as famílias dos policiais militares. Mais o que é demasiado relevante nesta atitude de lutas salariais e se deve também ao fato de que os comandantes simplesmente deixaram de lado a sua obrigação de estarem atentos e junto com as suas tropas para a busca da dignidade humana destes que servem ombro a ombro com eles na luta contra a criminalidade, porém com um diferencial, pois as praças estão sempre à frente no combate ao crime e aos marginais, em favor de seus comandantes que colhem os louros do sucesso, mas principalmente em favor das sociedades de seus Estados. O abandono destas obrigações se deve efetivamente devido a zona de conforto que se criou pelos altos salários recebidos por oficiais superiores (majores, tenentes-coronéis e coronéis) e oficiais intermediários (capitães) em detrimento dos oficiais subalternos (tenentes) e principalmente um abismo salarial em relação às praças de polícia, isto tomando como exemplo a polícia do Estado do Paraná, onde sirvo, mas sabendo que estes fatos se repetem nas instituições policiais militares de todo o Brasil. Mas não é apenas isto, existe a possibilidade destes homens de comando serem regiamente encaixados em cargos políticos de comissão, portanto se forem inimigos do rei, se não rezarem pela cartilha do poder que insiste em manter o policial de base na sua aba, refém econômico do poder e sempre carente de esmolas do Estado, logo seriam descartados do sistema, assim como poderiam eles cumprir com suas obrigações em relação a sua tropa? Assim de maneira simplista e direta podemos dizer que esta parte dos policiais militares, os oficiais intermediários e superiores é regiamente compensada para segurar a tropa e tentar impedi-los de enxergar tal ardilosidade deste sistema escravagista.
            Após esta explanação, vemos os absurdos acontecendo no momento em que nos insurgimos contra este sistema, mesmo sem querer ultrapassar as linhas que eles mesmos, os comandantes nos traçam, pois somos disciplinados, mas a insurreição acontece porque buscamos dignidade, não pedimos nada absurdo, apenas pagamento justo pelo trabalho que fazemos para a sociedade, mas não só o justo, mas o que já está obrigado por lei, ou seja, pedimos apenas que se cumpra a lei. Dentro deste contexto somos chamados e tratados como vândalos, como no episódio vivido pelos bombeiros do Estado do Rio de Janeiro e vemos as nossas famílias que dividem conosco os parcos salários que nos pagam e por isso mesmo imbuídos da mesma luta, sofrerem ao nosso lado, recebendo este mesmo tratamento que eles nos dispensam. Mas estes companheiros corajosos do Rio de Janeiro, não foram os pioneiros, pois tivemos outros movimentos que foram afogados pela fúria do Estado, que tiveram companheiros presos e expulsos das corporações. O que ocorre é que com policiais isto foi mais simples para o Estado, pois policiais não gozam do mesmo prestigio no seio da sociedade, não que não o mereçam, mas há relação de simpatia com a natureza de cada atividade, assim o movimento militar com os bombeiros funcionou de maneira diferente. O Estado cometeu um erro crasso, pois eles, os companheiros bombeiros são recepcionados pela população como verdadeiros heróis, sobretudo após os acontecimentos recentes na região serrana do Rio de Janeiro, me refiro ao soterramento de cidades inteiras que devido à atuação destes militares propiciou ainda mais a valorização profissional daquele que seria o posterior participante daquele movimento grevista. Pois é, que insensibilidade do Estado, que de tão truculento ficou burro e propiciou aos bombeiros e policias do Brasil todo, a possibilidade legal e real de uma luta mais justa devido à anistia concedida aos bombeiros do Rio de Janeiro e pioneiramente difundida em todo o Brasil e isto sim foi o que abriu as portas de lutas menos desiguais por justiça e dignidade dos servidores militares. Ao passo dos corajosos companheiros cariocas seguiram as policiais de outros Estados da Federação e vemos agora culminar com os companheiros da Bahia insólitas situações, com o chefe do poder executivo daquele Estado, como a exemplo do Estado do Ceará, o governador Jaques Wagner disparar acusações levianas para disfarçar ou não demonstrar sua irresponsabilidade pela intransigência com a qual trata a situação, com prejuízo extremo da sociedade baiana que tem seu patrimônio destruído e muitas vidas ceifadas, justamente por desleixo de uma administração omissa e fascista. Novamente vemos estes heróis baianos sendo tratados como marginais, aliás, nas polícias, basta você se manifestar para ser logo tratado como bandido e quadrilheiro e por conseqüência vemos muitas ameaças de prisões e de instauração de procedimentos administrativos, que quem é policial militar sabe muito bem como acaba, “EXPULSÃO” a bem disciplina, ao arrepio da lei e ao sabor do poder discricionário dos nossos comandantes.
            Vemos agora com o exemplo do movimento baiano a mais absoluta utilidade das praças da polícia militar, os homens de base, que o governador acaba de chamar de burros de carroça, que só trabalham a chicotadas. Isto nos força a perguntar por que os oficiais superiores e intermediários que talvez o governador não os tenha chamado de burros de carroça, não vestiram suas fardas, se equiparam, assumiram as viaturas policiais e foram defender a sociedade baiana? Este argumento rebate o fato que aqui no Estado do Paraná alega-se que não corrigem os salários das praças porque significaria um aumento impossível para o governo arcar em folha de pagamento devido ao grande número de policiais que seria agraciado com tal ato. Mas recentemente os oficiais superiores e intermediários tiveram dobrados seus salários em uma régia “canetada” do governo e alegam que se a praça quiser aumento deve estudar e buscar suas promoções até chegar a ser um oficial intermediário ou superior para perceber um salário digno, ou deve mudar de profissão. Vejamos tal alegação, a luz de pequena reflexão e o quanto é falaciosa. Então deveríamos ter oficiais intermediários e superiores todos aplicados nas ruas atendendo ocorrências, pois todos que querem ser melhor assalariados devem galgar aos postos superiores e daí eu pergunto há lugar (vagas) para todos atingirem estes régios salários e manter a Polícia em perfeito funcionamento em relação às funções de cada posto ou graduação? Pergunto também, e se todos que querem ser melhor remunerados saírem da Polícia Militar do Paraná, para em outra profissão buscar a dignidade que aqui não podem nos oferecer, assim quem irá atender a população? O que acontece companheiros, é que quem permanece na corporação é por profundo amor a profissão e por isso digno de lutar por salários dignos para manter as suas necessidades e sustentar a sua família com dignidade e ainda ser realizado profissionalmente, fazendo aquilo que ama fazer. Pergunto também, porque as praças não podem buscar e possuir este direito? Quem é o dono deste direito? Não aceito este argumento que ouvi recentemente e aqui citei, assim sustento que temos o direito de buscar melhor remuneração e melhores condições de trabalho e o verdadeiro respeito dentro da caserna e postulo que isto é salutar para a corporação e para a sociedade e não aceito tal argumento como necessário para qualquer praça desistir deste sonho de dignidade e proponho a qualquer oficial que voltar a utilizá-lo como suficiente para convencer qualquer ser pensante a este respeito, reformular seus conceitos.
            Nós homens acostumados a ser assalariados, vivemos de maneira modesta, portanto não somos gananciosos, buscamos apenas a justiça, respeito e dignidade numa profissão que é tão importante para a sociedade, porque não podemos nos acostumar com a injustiça, com a falta de respeito e de dignidade.
Jamais poderíamos ser chamados de policiais revoltosos, quanto mais de vândalos ou marginais, pois somos habituados a disciplina, a hierarquia e a sinais manifestos de respeito. No atual contexto postulamos, ou seja, reiteramos, uma vez que este fundamento já está previsto em nossos regulamentos, pois o “respeito deve ser mútuo” ou este fundamento que é basilar em qualquer sociedade e primordial na caserna, ficaria prejudicado.
Indignados, estamos sim, pois vemos aviltados nossos direitos diariamente e quando protestamos, no fundamental direito a manifestação, garantido constitucionalmente, mas que nos querem tirar somos imediatamente taxados de vândalos e marginais em mais um flagrante de injustiça.
Com base em tudo o que foi explicitado é possível dizer que estamos em pleno flagrante de descaso por obra de todas as autoridades que se dizem envolvidas com a gestão e os rumos da segurança pública em todo território nacional.     
A segurança pública, este campo fundamental e basilar da gestão de qualquer Estado da federação vem sendo apenas bandeira eleitoral que depois é logo esquecida, vem se transformando em pequenos planos de governo, que todos sabemos são efêmeros, quando deveriam ser compromissos prioritários de Estado, com estratégias definidas em lei, com a intenção maior de atender a população e firmar compromissos sérios e laços fortes principalmente com os profissionais de base aplicados em sua operação. Lamentavelmente é regra que a segurança pública vem sendo instrumento de utilização política e sempre é vítima do mais profundo descaso, pois os governos passam, mas o Estado deve ser eterno e eterna é a sua obrigação com a segurança do povo como parte essencial do pacto social.  

AUTORIA E PESQUISA:
Valdemiro Dusi Junior
- 2º Sgt da Polícia Militar do Paraná (21 anos de serviços prestados à sociedade paranaense)
- graduado em Gestão Pública pela Universidade Federal do Paraná – IFPR – Curitiba – PR.
- graduando em Filosofia pela Faculdade Padre João Bagozzi – Curitiba – PR.
- Diretor da APRA-PR – Associação de Praças do Estado do Paraná.



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Polícia PELA ORDEM

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